Texto escrito pelo leitor Gabriel Bester

Depois de uma viagem de moto por toda a costa do Rio de Janeiro até a Região dos Lagos e com retorno por Minas Gerais até São Paulo, resolvi ir para a Chapada Diamantina, na Bahia.

Decidi fazer essa viagem de 3 semanas como preparação para minha próxima expedição, que terá como destino o Alasca. Lá serão 50 mil km em cima de uma moto, atravessando 14 países durante aproximadamente 90 dias. Minha intenção é incluir trabalhos de filantropia nas comunidades carentes ao longo do caminho e com algumas missões que vão tornar a expedição ainda mais desafiadora. Terei como companhia apenas minha moto, minha barraca e pouca bagagem.

Para treinar para esse grande desafio, quis um destino bonito e longo, que incluísse trechos de caminhada e acampamento solitário no meio da natureza. Foram 3.700 km até a Chapada Diamantina, cruzando os estados de São Paulo, Minas Gerais e Bahia, sempre a bordo da minha companheira de 2 rodas.

Saí de São Paulo no dia 16 de junho com destino a Viçosa (MG). Boa parte da viagem é na Rodovia Fernão Dias, com belas paisagens de campo e, como era durante a semana, estava praticamente vazia. Assim consegui percorrer 750 km em 7h30.

Já era noite quando cheguei a Viçosa, então decidi descansar porque o próximo trecho seria longo. No dia seguinte, parti com destino a Vitória da Conquista (BA), percorrendo 850 km em 12 horas com paradas estratégicas para abastecer e comer.

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Estrada com destino a Viçosa (MG) tem boa parte da viagem na Rodovia Fernão Dias (Foto: Gabriel Bester)

Ao entrar no Estado da Bahia fui surpreendido por uma forte chuva e frio já ao anoitecer. Apesar de suas longas retas, esse trecho foi bastante desafiador pela baixa visibilidade, pista única, poucos pontos para ultrapassagem e grande quantidade de caminhões.

Apesar da tentação de parar no próximo posto e acampar ali mesmo, decidi seguir até o destino estabelecido previamente. Após cruzar o planalto baiano, finalmente cheguei em Vitória da Conquista sem maiores dificuldades graças ao desempenho da minha fiel companheira, uma Triumph Tiger 800 XC.

Busquei rapidamente o primeiro hotel de beira de estrada antes que meus dedos congelassem. Paguei R$ 40 o pernoite, com direito a ‘TV de alta definição’ (haha) e chuveiro quente (ufa). Tomei um bom banho e dormi em menos de 5 minutos. Sim, viajar é bastante cansativo, principalmente quando se pilota a noite e em condições adversas.

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Hotel da primeira parada custou R$ 40 pernoite (Foto: Gabriel Bester)

No dia seguinte acordei e, após meia hora ajustando a bagagem na moto, parti para o sertão baiano. Nesse dia foram 320 km, sendo 70 km deles em estrada de terra, entre as cidades de Mucugê e Palmeiras, passando por Guiné. Desses 70 km, cerca de 50 km estavam em boas condições, permitindo velocidades de até 120 km/h. Já os outros 20 km estavam em condições lamentáveis, infelizmente, o que tornou o trecho ainda mais desafiador e lento.

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No sertão baiano, a maior parte da estrada está em boas condições (Foto: Gabriel Bester)

| Chegando na Chapada Diamantina

Cheguei a Palmeiras, uma das principais cidades que cerca a Chapada Diamantina e que leva esse nome graças às típicas palmeiras endêmicas da região. Clique aqui para saber mais sobre a região da Chapada Diamantina.

Fui recebido por dois grandes amigos: André Arista e Ramon Barreto, recém-formados em engenharia florestal e que trocaram a vida na cidade por um ambiente cercado de belezas naturais. Lá, montaram uma empresa de consultoria ambiental, a G2 Florestal.

Já na primeira noite, ignorando os sintomas da longa viagem sobre duas rodas, fui levado pelos meus amigos para a cidade do Vale do Capão (Caeté Açu), a 20 km de Palmeiras. O caminho é sempre feito por estradas não pavimentadas e em péssimas condições.

Ao chegar lá, comemos uma pizza e fui recebido por uma cidade ‘bombando’ de turistas de todos os cantos do Brasil e do mundo, todos felizes e dançantes na praça principal da cidade. Para minha alegria, era época de São João, festa muito celebrada pelo animado povo baiano. Uma grande fogueira havia sido montada no meio da praça, próxima ao coreto, onde estavam se apresentando bandas de forró. A rotina de festa se repetiu durante os três dias seguintes: descansando nas manhãs e visitando o animado Capão durante a noite.

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Festa Junina em Vale do Capão (Foto: Gabriel Bester)

Durante esse período tive oportunidade de me preparar, fisicamente e psicologicamente, para a grande aventura que estava por vir, a famosa Travessia do Pati. Ela fica dentro do Parque Nacional da Chapada Diamantina e é considerada por muitos o melhor e mais desafiador trekking do Brasil.

| Travessia do Pati

O Vale do Pati foi um dos maiores produtores de café no século XX e comportava cerca de 2 mil habitantes, além de centro comunitário e comércios. Ele fica entre os municípios de Andaraí e Mucugê, com encostas cobertas pela mata atlântica.

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O Vale do Pati tem cerca de 50 habitantes que, cordialmente, abrem suas portas para hospedar os aventureiros (Foto: Gabriel Bester)

Hoje em dia, o Vale do Pati tem cerca de 50 habitantes que, cordialmente, abrem suas portas para hospedar os aventureiros que frequentam a região. Existem três opções de hospedagem: em barraca própria (R$ 15,00), com isolante em quarto compartilhado (R$ 20,00) e colchão e cobertores em quarto compartilhado (R$ 30,00). Seja qual for a sua escolha, saiba que o banheiro é compartilhado e a água é sempre muito gelada porque não há energia elétrica, apenas lâmpadas de LED impulsionadas por geradores de energia solar. Alguns moradores oferecem ainda quartos privativos e refeições, que devem ser solicitadas com antecedência.

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Moradores recebem os aventureiros em casas simples e com preços acessíveis (Foto: Gabriel Bester)

Existem pequenos mercados vendendo alimentos e coisas relacionadas ao trekking, como pilhas, isqueiros etc. Os preços, evidentemente, são altos devido à dificuldade de abastecimentos dos mercados, que é feita a pé ou com mulas.

Por problemas mecânicos com o carro que estava nos levando até o começo da trilha, só conseguimos começar a longa caminhada por volta das 15h. Foram 3h30 andando por trechos de subidas e decidas íngremes e trechos planos, sendo 1h sob a forte luz da lua cheia e nossas lanternas.

Só conseguimos chegar à casa da Dona Raquel, moradora local que nos hospedaria, devido aos conhecimentos da amiga Luana, que nos acompanhava e já havia feito o caminho diversas vezes. Isso é um fator importante: faça o percurso com quem conhece a região.

Cheguei exausto e rapidamente montei a minha barraca, mas ainda precisava preparar o jantar, sempre feito em cozinhas comunitárias e no fogão à lenha. Acho que não demorei nem 5 minutos para dormir depois de comer.

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Barraca no início da noite com vista privilegiada (Foto: Gabriel Bester)

| Funis

Na manhã seguinte, sob muita neblina e uma leve garoa, fizemos o café da manhã, sempre regado a cuscuz, prato típico e muito consumido na região. Preparamos alguns lanches e iniciamos a caminhada com destino aos Funis. São aproximadamente 3h andando ao longo de um rio, com diversas cachoeiras e pontos para banho.

Chegamos à terceira e maior cachoeira do percurso, demos alguns mergulhos, lanchamos e iniciamos a bela caminhada de volta para a casa da Dona Raquel.

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Pausa para o mergulho na terceira e maior cachoeira do percurso (Foto: Gabriel Bester)

| Castelo

Na manhã seguinte acordamos e, após outro café da manhã caprichado, iniciamos mais uma caminhada. O destino da vez? O incrível Castelo, um dos pontos mais altos da Chapada Diamantina. Depois de quase 1h30 de caminhada em uma trilha muito íngreme em meio à Mata Atlântica, chegamos a um paredão de pedras e encontramos a entrada da caverna que nos levaria até o outro lado da montanha. De lá é possível contemplar o imenso Vale do Pati. A vista é de tirar o fôlego!

Ficamos tão impressionados com a paisagem que nem vimos a hora passar. Já era quase fim de tarde quando iniciamos a volta para a casa da Dona Raquel. Mais uma vez, um banho gelado, jantar e cama. Exaustos!

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O incrível Castelo é um dos pontos mais altos da Chapada Diamantina (Foto: Gabriel Bester)

| Toca do Gavião e Cachoeirão

Para o terceiro dia de caminhada, programamos a saída um pouco mais tarde, pois montaríamos acampamento na Toca do Gavião e de lá visitaríamos o belo Cachoeirão. E assim o fizemos, desmontamos a barraca, tomamos café da manhã, preparamos as malas e iniciamos a caminhada, que levou aproximadamente 3h.

Montamos nosso acampamento na Toca do Gavião e seguimos para o Cachoeirão, um lugar incrível e imenso. É nesses momentos em que notamos o quão surpreendente e perfeita é a natureza, que faz nos sentirmos pequenos e indefesos diante de tanta beleza e poder, mas também grandes e abençoados pela oportunidade de observar e sentir tamanha força e grandiosidade.

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Vista do topo do Cachoeirão (Foto: Gabriel Bester)

Após algumas horas de contemplação e certa adrenalina, caminhamos em direção ao nosso acampamento, 40 minutos distante do Cachoeirão. Ao chegar, acendemos uma fogueira – sempre atentos pois as queimadas são frequentes na região -, jantamos algumas fatias de salame, pão e frutas e dormimos. Havíamos programado um carro que nos buscaria às 8h30 em Guiné, começo e fim da nossa caminhada. Para tanto, teríamos que sair da Toca às 5h da manhã, considerando que são aproximadamente 3h30 de caminhada até o início da trilha.

Acordamos debaixo de muita neblina, forte garoa e frio. Iniciamos a longa caminhada, feita em sua maior parte no Gerais do Vieira, um dos trechos mais lindos do percurso. Chegamos em tempo, pegamos o carro e voltamos para Palmeiras, onde um banho quente era prioridade.

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Guiné é o inicio e o final da caminhada (Foto: Gabriel Bester)

| Volta para casa

Infelizmente era hora de se despedir daquele lugar e iniciar a longa jornada de volta para casa, sozinho, mas felizmente a bordo da minha companheira de duas rodas. Arrumei toda a bagagem na moto e, depois de uma boa noite de sono, peguei o caminho de volta pra casa, em São Paulo. Os primeiros quilômetros não foram fáceis devido a grande quantidade de barro e atoleiros ao longo da estrada de terra, consequência das chuvas dos últimos dias.

Com a soma das belas paisagens e minha máquina, adiei minha parada e decidi seguir até Viçosa. Foram 1.200 km em 16 horas, uma boa tocada com muita reflexão sobre o que eu havia acabado de vivenciar. Conquista que pode não representar nada para muitos, mas cativa e inspira outros tantos. Cheguei cansado e com frio, mas feliz e satisfeito. Dormi.

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Na volta para casa, foram 1.200 km em 16 horas (Foto: Gabriel Bester)

Mais uma boa noite de sono e segui viagem rumo a São Paulo, mais 750 km. Cheguei!

Dicas

– Use capacete e pilote com atenção;
– Hidrate-se;
– Informe-se com antecedência sobre as condições climáticas;
– Leve equipamentos apropriados (barraca, capa de chuva, bota, saco de dormir, protetor solar, agasalho apropriado, cantil e repelente);
– Contrate um guia ou vá acompanhado de pessoa experiente;
– Fique atento com cobras, escorpiões e aranhas, que são comuns na região;
– Respeite e preserve a natureza;
– Leve dinheiro em espécie, não é possível realizar saques para a maioria dos bancos;
– Leve máquina fotográfica.

Números da expedição

– Km de moto: 3.700
– Km a pé: 100
– Tombos: 0
– Problemas mecânicos: 0
– Trocas de óleo: 1
– Problemas de saúde: 1 picada de aranha, sem maiores complicações
– Total de dias: 21
– Noites na barraca: 5 dias

 

Veja mais fotos da viagem na galeria abaixo:

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Sobre o autor

Somos três amigos que compartilham o sonho de conhecer os quatro cantos do mundo. Da vontade de explorar diferentes lugares e da busca constante por novas experiências, surgiu o RoadTrio: um site que reúne informações, dicas e notícias do que não se pode perder por aí e é essencial para qualquer viajante.

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